Desde que me entendo por gente, eu sempre gostei do universo dos livros. Todas aquelas letrinhas, figuras e cheiros me hipnotizavam por horas, de modo que brinquedos e livros estavam sempre misturados. Nem sempre livros próprios para a minha idade. Haviam dois livros de poesia em especial que me cativavam: “Meus Poemas Preferidos”, de Manuel Bandeira, e “Flor de Poemas”, de Cecília Meireles. Eu os lia sempre, e recitava o pequeno poema triste de Manuel Bandeira, chamado “O Bicho”.
Na maior parte do tempo eu me limitava à biblioteca que tínhamos em casa – o que se resumia a uma estante de aço, com prateleiras frias que eram aquecidas somente pelos livros que minha mãe juntava desde solteira. Daí ela casou com meu pai, que juntava livros, entre outros assuntos, de fotografia, e então voltamos para o ponto da história que vocês já conhecem: eu amava aqueles livros. E acho certo conjugar o verbo “amar” no passado e devo explicar isso melhor agora. Este é um momento de confissão.
Depois que decidi que entraria num seminário e comecei a descobrir o altos e baixos da vida acadêmica (mais baixos que altos, no meu caso), percebi que ler poderia ser bem chato também. Eu não estava acostumada com ensaios científicos, e cá pra nós, eu nem estava esperando isso num curso de cunho vocacional. Na realidade, eu não sabia bem o que esperar. A maior parte eram expectativas românticas, como a maioria dos seminaristas estão acostumados a nutrir (se não é a maioria, não me conte. Não quero me sentir idota e sozinha agora). Então eu me via num seminário teológico, sendo bombardeada por textos de autores que eu nunca tinha escutado falar e lendo um monte deles por pura obrigação (eu falei que esse era um momento de confissão).
