21 agosto, 2011

Salve o momento

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(…) O terrível segredo, que ninguém parece ter a coragem de encarar, é que o mundo não pode ser salvo de uma só vez. Não há como se varrer a miséria da existência em grandes e eficientes vassouradas. Não há como se pagar alguém para ir salvando o mundo, do modo que se paga o encanador para desentupir o ralo. Salvar o mundo é um serviço sujo que só você pode fazer, ao ritmo de um ínfimo passo de cada vez.

O mundo é salvo em partes. Em partes pequenas.

Souberam-no e sabem-no todos os grandes santos, jesuses, gandhis e são franciscos, e as madres teresas de todas as Calcutás. O único modo verdadeiramente virtuoso de se viver e o único modo eficaz de se salvar o mundo é pelo regime dispendioso, frustrante e tremendamente lento dos microsalvamentos: redimindo-se um momento de cada vez. Um remédio de cada vez. Uma refeição de cada vez. Uma conversa de cada vez. Um abraço de cada vez. Uma caminhada de cada vez. Um cafezinho de cada vez. Um pedido de desculpas de cada vez. Um perdão de cada vez. Um churrasco de cada vez. Uma adoção de cada vez. Uma cura de cada vez. Uma dor de cabeça de cada vez.

Os microsalvamentos não são glamurosos, não são definitivos, não dão manchete e não são recompensadores. Não dão a impressão de trabalho realizado, porque não está. É apenas o começo das dores, e amanhã haverá mais. A pedra que empurramos até o topo hoje terá deslizado invariavelmente o morro amanhã, e amanhã haverá outras.

Não temos infelizmente o chamado ou a capacitação para salvar o amanhã, o que nos pareceria infinitamente mais atraente. Amanhã as coisas podem já ter mudado. Amanhã posso ter dado um jeito de escapar daqui. Minha tarefa, minha impensável tarefa, é salvar este momento, este ridículo, insuportável, irredimível momento.

Alguém pare o momento que quero descer.

Paulo Brabo, via A Bacia das Almas

07 agosto, 2011

Identidade - Gustavo Paiva (Dunamis)

Descobrir quem realmente somos (e não somos), é empreitada para corajosos. Pode ser que você se assuste com o que verá diante do espelho quando sua própria máscara cair. Curiosamente, é também uma experiência libertadora. E por mais dolorosa, estranha e solitária que essa jornada possa ser, ninguém deveria se privar de empreede-la. Ainda estou encarando esse processo, tentando evitar as distrações e ludíbrios que minha alma me arranja - "nossa, o que você diante do espelho é tão ruim assim?". É estranho. Não me reconheço e tudo que me definia antes era somente uma "capinha elegante" para me apresentar ao mundo. Todos fazemos isso.  E continuaremos fazendo. Quando me resta algum momento de lucidez, percebo a realidade de quem eu sou e finalmente me lembro que o que importa é quem Ele é - em mim, nEle mesmo, no meu próximo. 

Durante esse processo conheci pessoas, li livros, fiquei em silêncio, escutei músicas, fiz barulho, levei bronca... Tudo, à sua própria maneira, fazendo parte do processo. E era (e é) muito bom perceber providências divinas devidamente endereçadas a mim, de uma forma muito real e pessoal, bem do jeito d'Ele mesmo. O vídeo abaixo é uma dessas providências. E como Deus pensa grande, pensa "família", talvez seja especial pra você também :)

 

"Existe um tempo que é o tempo em que Deus quer que você se aquiete, o tempo do silêncio. O tempo em que você não faz tanta coisa, mas Deus faz tanta coisa em você!... Curte o que Deus tá mexendo dentro de você. (...) Então quando Deus não tiver falando muita coisa, fica na tua! (...) Ninguém te reconhece, você não é reconhecido por ninguém, e isso é bom! Não é aplaudido por ninguém, não é vaiado por ninguém - você só está lá e Deus está mexendo em você. Não significa que você não tem um chamado, simplesmente é a hora em que Deus está mexendo e você está crescendo".


Tkanks, @Patty4Jesus pela dica.

Chapeuzinho Amarelo – Chico Buarque


“(…) Não tem mais medo de chuva nem foge de carrapato. Cai, levanta, se machuca, vai à praia, entra no mato, trepa em árvore rouba fruta, depois joga amarelinha com o primo da vizinha com a filha do jornaleiro com a sobrinha da madrinha e o neto do sapateiro. Mesmo quando está sozinha, inventa uma brincadeira. E transforma em companheiro cada medo que ela tinha: o raio virou orrái, barata é tabará, a bruxa virou xabru e o diabo bodiá.” (+)